terça-feira, 28 de setembro de 2010

Candidatura a Presidencia do PCB

Olá!

Às vezes fico pensando em qual seria a melhor revolução para um Brasil melhor. Não acredito mais nas eleições por voto, qual é a representatividade de um candidato? São bastante interessantes as idéias do "Partidão" (PCB). Pena, como já disse, que não acredito na representatividade. A desigualdade existe até na hora em que os candidatos vão se apresentar. Mas, voltando ao Partidão, Leiam a Entrevista do Ivan Pinheiro ao ESHoje, do Espírito santo.  Um abraço, Blarg e boa leitura!

 

Ivan Pinheiro quer acabar com autonomia do Banco Central e suspender o pagamento da dívida externa

Em visita a Vitória, o presidenciável pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) apresentou propostas, segundo ele, para um "Estado forte, eficiente e a serviço dos anseios populares"
Por Priscila Bueker (pbueker@eshoje.com.br) Fotos: Leonardo Sá.
A praticamente uma semana antes das eleições, chegou a vez de outro presidenciável trazer ao eleitor capixaba suas propostas e projeto de governo. Na tarde desta segunda-feira (27), o Partido Comunista Brasileiro (PCB), trouxe ao Espírito Santo o presidenciável, o advogado carioca, Ivan Pinheiro. O candidato fez corpo a corpo no Centro de Vitória e, em seguida, se reuniu com o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil seccional Espírito Santo(OAB-ES), Homero Mafra.
De acordo com Pinheiro, o partido comunista, um dos mais antigos do Brasil, tem por filosofia construir o poder popular e avançar na luta pelo socialismo no país. Dos 27 Estados Brasileiros, o partido está organizado em 21 deles. Destes, em 19 o PCB tem candidatos disputando vaga em todos os níveis. O partido não tem representatividade em âmbito capixaba. Porém, de acordo com o candidato, o PCB promove uma campanha política de caráter revolucionário e não apenas eleitoral.
Declaradamente de esquerda, contra as desigualdades geradas pelo sistema capitalista, Pinheiro ressalta que, na possibilidade de ser eleito, tomaria uma primeira medida: a suspensão do pagamento da dívida externa, para promover uma auditoria. Para ele, o governo Lula conseguiu avançar, mas dentro dos moldes capitalistas, dando lucro só para os bancos.
"O Brasil gasta 35% do orçamento corrente para pagar dívida. Eu acabaria com isso, como também, com a autonomia do banco central e fortaleceria os bancos públicos estaduais. Uma outra proposta é reestatizar algumas estatais estratégicas que foram privatizadas no governo FHC, como a Vale do Rio Doce. O capitalismo vive uma crise sistêmica. Nós estamos em um Estado patrimonialista, aparelhado. Só o socialismo seria capaz de combater esta desigualdade econômico-social", declarou.
Na área social, o candidato comunista criticou o bolsa-familía como sendo uma medida compensatória, mas que o próximo presidente terá que mantê-lo. "O bolsa-família é uma política que não tem porta de saída. Ele evita que as pessoas passem fome, e por isso, o próximo presidente terá que dar continuidade. Minha proposta é transformar o bolsa família, de esmola, para um elemento propulsor de educação, saúde e desenvolvimento. Nós iríamos estudar para ver como isso seria implantado", ressaltou.
Pinheiro acredita que algumas medidas deveriam ser tomadas para que se alcance a verdadeira igualdade social. Dentre elas, a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, o fim do fator previdenciário,  a reforma agrária,  a erradicação do analfabetismo e  a polêmica legalização do aborto. De acordo com o presidenciável, mais do que construir um novo país, ele o pretende fazer juntamente com os trabalhadores e o povo. Quanto à  própria organização política, o candidato defende uma reforma, com plebiscitos e referendos sobre temas de interesse nacional e um Congresso unicameral, com extinção do Senado.
"A continuidade do capitalismo é uma ameaça à própria vida, à natureza e à espécie humana. Este sistema está completamente falido e somente uma grande frente anticapitalista e anti-imperialista, envolvendo organizações políticas, movimentos populares e setores progressistas da sociedade, será capaz de lutar pelas transformações sociais, econômicas e políticas necessárias para a superação deste sistema. Somos contra à supervalorização do dinheiro e a favor da vida e do desenvolvimento social", enfatiza.
 
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Desigualdade na campanha. De acordo com o presidenciável comunista, o advogado Ivan Pinheiro, o fato de sua campanha ser menor, em vista dos concorrentes Dilma Roussef (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV), não atrapalha na divulgação e no acolhimento  de suas idéias de campanha. Para ele, o PCB cumpre seu papel que é o de trazer uma nova alternativa e de qualificar o debate.
"Quando registramos nossa chapa, não tínhamos nenhuma ilusão de que a mídia nos beneficiaria, até porque somos contra essa política imperialista, dos grandes empresários, a qual ela faz parte. Estamos na semana anterior à eleição, e quanto a Dilma e o Serra, um gastou R$ 180 mi e o outro R$ 200 mi em campanha. Nós gastamos R$200 mil. Mas, nossa maior satisfação está em levar para o eleitor um novo projeto político, ideológico, doutrinário socialista condizente com o desejo popular", explicou Pinheiro.
Ele ainda explica que um segundo objetivo de sua campanha está relacionado à organização do partido. "Logicamente precisamos do seu voto, mas está sendo ótimo percorrer o Brasil e ver que nossa campanha está sendo bem aceita. O Partido Comunista Brasileiro teve uma cisão em 1992 , do qual originou o Partido Popular Socialista(PPS). Só que ficamos em desvantagem, algumas pessoas até achavam que o partido tinha acabado. Em 1996, conquistamos nosso registro e foi agora, a partir de 2005, que voltamos a nos organizar efetivamente. Creio que em breve teremos candidatos aqui no Estado", ponderou.
2° turno. Sobre um possível 2° turno entre a petista, Dilma Roussef(PT) e o tucano, José Serra (PSDB), Pinheiro não acredita que aconteça na atual conjuntura. Ele explica que, caso ocorra, o PCB terá uma árdua tarefa ao definir seu apoio. Para Pinheiro, a diferença entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido da Social Democracia está ficando cada vez menor.
"O governo Lula avançou, não nego. Será que haverá um 2 ° turno? Duvido. Pois para nós, a escolha será difícil. Em 2006 apoiamos Lula , porque entre ele e Geraldo Alckmin, ele era menos pior. Sinto também que, caso aconteça este segundo pleito, pode ser entre duas candidatas mulheres. É o que sinto nas ruas", disse.
Sobre os resultados das campanhas, o candidato é enfático: "Vamos analisar com carinho nosso apoio, caso aconteça esse 2° turno. O fato é que este pleito é totalmente desigual, inclusive para nós.Uma pesquisa revelou que, ao final destas eleições, 98% dos eleitores sairão sabendo quem são Serra, Dilma, por exemplo, e suas propostas, partidos e idéias. Enquanto que, quanto aos partidos de esquerda, apenas 5% sabem de nossas idéias, projetos e relação com o Governo Lula", finalizou.

domingo, 19 de setembro de 2010

Leonardo Boff: "João Paulo II e Bento XVI afastaram a Igreja do mundo"

Olá!

Segue a entrevista de Leonardo Boff para a Revista Época.

O teólogo Leonardo Boff é um dos maiores críticos brasileiros ao comportamento recente da Igreja Católica. Expoente da Teologia da Libertação, foi expulso da Igreja nos anos 80, por criticar sistematicamente a hierarquia da religião. Doutor em Filosofia e Teologia pela Universidade de Munique, Boff falou a ÉPOCA sobre os principais motivos da grande perda de fiéis da Igreja Católica para as evangélicas e pentecostais no Brasil e fez críticas ao movimento carismático, comandado pelos padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo. "Eles são animadores de auditório. Isso não leva ninguém à transformação. É um Lexotan".
ÉPOCA – O Papa Bento XVI reconheceu, no último dia 10, a enorme perda de fiéis da Igreja Católica no Brasil e a rápida expansão das evangélicas e pentecostais. A que se deve isso?
Leonardo Boff -
São três causas. Primeiro, a Igreja não consegue ter padres suficientes pra atender fiéis, por causa do celibato. São 17 mil, e teriam de ser uns 120 mil. As pentecostais ocupam esse vazio. Elas vão ao encontro das demandas do povo. O povo não é dogmático, vai pro centro espírita, vai pra macumba... Em segundo lugar, a grande desmoralização que a igreja sofreu com os padres pedófilos. É a maior crise desde a Reforma Protestante. É uma crise grave, porque se desmoralizou e perdeu o conteúdo ético. A maneira como o Vaticano se comportou foi desastrosa. Tentou encobrir e depois disse que era um complô internacional. Só quando começaram a aparecer muitos casos que o papa disse que tinha que punir. Mas, mesmo assim, não mostrou solidariedade com as vítimas e nem como mudar isso. Só pensa na Igreja. Em terceiro lugar, o fato de a Igreja ter uma visão muito abstrata da realidade. Uma linguagem que o povo não entende direito.
ÉPOCA – O senhor acredita que nas últimas décadas houve um retrocesso na modernização da Igreja Católica?
Boff -
João Paulo II e Bento XVI abortaram as inovações de João Paulo I e afastaram a Igreja do mundo. A Igreja não tem dialogo com as outras igrejas. Falta uma reconciliação com o mundo moderno. Desde o século XVI que a Igreja vive em briga com ele. A igreja se abriu a isso e João Paulo II, com sua visão medieval, abortou tudo isso. A Igreja não tem mais poder político. Só tem poder moral. Reforçou a estrutura hierárquica tradicional. Marginaliza mulheres, e os fiéis têm a representatividade de garis. A igreja dos anos 60 aos 80, quando surgiram a Teologia da Libertação e os movimentos de base, foi abortada. Isso tornou a igreja antipática.
ÉPOCA – O que os católicos encontram nas outras igrejas que não encontram na Católica?
Boff -
O povo quer uma mensagem compreensível e simples. As evangélicas utilizam os instrumentos do mercado e são muito calcadas em cima da prosperidade. Há uma grande manipulação das expectativas e do sentimento religioso do povo. Mas, ao mesmo tempo, elas são formas de ordenar a sociedade. Muitas famílias que viviam nas drogas e na bebedeira se estruturaram, se inseriram na sociedade. Fator de ordem.
ÉPOCA – Bento XVI disse que os padres não estão evangelizando suficientemente os fiéis e que as pessoas se tornam influenciáveis e com uma fé frágil. O senhor concorda?
Boff -
O problema não é evangelizar. É a maneira como se faz. O catecismo e outros símbolos imutáveis são engessados, não falam no fundo das pessoas. É um cristianismo fúnebre. O padre Marcelo Rossi está imitando as pentecostais. Há um vazio de evangelização, é a relação pessoa e Deus. É melhor escutar o padre Rossi do que escutar a Xuxa, mas é a mesma coisa. Eles são animadores de auditório. Isso não leva ninguém à transformação. É um Lexotan. Depois volta a lógica dura da vida. É uma evangelização desgarrada da vida concreta.
ÉPOCA – O papa já se não ser muito favorável aos líderes mais carismáticos, como Marcelo Rossi e Fábio de Melo. Isso não complica as coisas?
Boff -
O Vaticano e os bispos não gostam de ter sombra ao lado deles. E Roma não gosta disso. Por isso quer enquadrá-los. Eles são modernos e mercadológicos. Por outro lado, não levam as pessoas a refletirem sobre os problemas do mundo. O padre Rossi nunca fala dos desempregados e da fome. Só convida a dançar. Ele louva as rosas, mas esquece o jardineiro que as rega.
ÉPOCA – Qual seria a melhor forma de atrair quem anda distante da Igreja Católica?
Boff -
A melhor forma é aquilo que a Igreja da Libertação faz desde os anos 70. Reunir cristãos pra confrontar a página da Bíblia com a da vida. Uma evangelização ligada ao cotidiano e às culturas locais. Uma coisa no Nordeste, outra na Coreia. Essa visão proselitista é ofensiva à liberdade humana.
ÉPOCA – Essa tendência de crescimento das outras igrejas se reflete em outros países tradicionalmente católicos. Ela é universal?
Boff -
É um fenômeno mundial chamado imigração interna do cristianismo. Muitos cristãos da Europa que estudaram estão migrando de igreja. Não aceitam esse tipo de igreja. O cristianismo na Europa é agônico. A Alemanha, por exemplo, que tem o imposto religioso, o destina para a luta contra a aids. É outra visão. Tanto que a maior religião do mundo já é a mulçumana, que cresce muito na África. É simples. Não tem padre, nem bispo. Atrai muito mais as pessoas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Depoimento de quem viveu no Irã

Olá!

Que a imprensa golpista fala e escreve todos nós conhecemos, mas conhecer "in loco" um país como o Irã é outra coisa. Eis o que aconteceu com  a escritora Soni Bonzi. O artigo abaixo foi publicado no site  http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=605   
Ter outros olhares sobre a mesma informação é verdadeiramente a melhor maneira de obter conhecimento real.


"O Irã que eu conheci

Por Sonia Bonzi
Depois de ter morado no Irã, minha maneira de ver o mundo mudou bastante. Não acredito em mais nada do que diz a grande mídia.
Quando soube que ia morar em Teerã senti um certo medo, mas aceitei o desafio. Comecei uma busca voraz por informações sobre o país, a cidade, a história, o povo. Depois de tudo que li, decidi que viveria em casa, reclusa, lendo, escrevendo, fazendo crochet, inventando moda...
Parti de Londres pronta para o sacrifício. Teria que conviver com os xiitas radicais, terroristas cruéis, apedrejadores de mulheres, exterminadores de homossexuais, homens-bomba, mulheres oprimidas, cobertas com véus...
Eu estava submetida às leis locais e me seria vedado mostrar cabelos, pernas e braços. Ficar em casa era o que mais me atraia. Vestir um chador para sair me parecia um pouco demais. A caminho de Teerã eu depositava o sucesso da minha estadia nos jardins da casa onde fui morar. Ter aquele espaço me bastaria.
Logo ao sair do aeroporto comecei a ter uma imagem diferente de tudo aquilo que eu tinha lido. Tudo tão bonito, belas estradas, muita luz, viadutos com mosaicos, jardins bem cuidados, gente vendendo flores nos sinais, um engarrafamento sem buzinas, pedestres poderosos cruzando entre os carros, rapaziada de cabelo espetado, mocinhos com camisetas apertadinhas, moças lindas, super produzidas e também muitas mulheres de chador. Parques cheios de gente. Muita criança. Muito pic nic.
Dizem que a primeira impressão é a que vale. Gostei da chegada. Não tive medo. Não vi tanques, cadafalsos, escoltas armadas... Gostei das caras, das montanhas, das casas, das árvores, dos muros, do alfabeto que me tornava analfabeta.
Logo no segundo dia eu já tinha entendido que minha leitura sobre o cotidiano não tinha nada de realidade. Eu não precisava usar chador. Podia sair vestida com uma calça comprida, um camisão de mangas compridas e um lenço na cabeça. Senti-me nos anos 70, quando eu não dispensava um lencinho.
Deixei o jardim de casa e fui conhecer Teerã.
A imprensa e os meios de comunicação do ocidente me deixavam confusa. O que eu lia e ouvia não correspondi ao que eu vivia e via.
Encontro um povo é acolhedor, educado, culto, simpático, que gosta de fazer amigos, que abre as portas de casa para os estrangeiros, gosta de música, de dança, de declamar poesia... Não encontrei os problemas de abastecimento que me informaram haveria. Comprava-se de tudo, inclusive uísque e vodka. Bastava um telefonema.
Os temíveis homens-bomba nunca passaram por lá. Ninguém se explodia. Foi horrível constatar que enforcamentos aconteciam de vez em quando. Apedrejamento de mulher adúltera já não acontecia há 14 anos.
Fiquei amiga de muitos gays, fiz e fui a festas espetaculares, tomei vinho feito em casa, viajei sem escoltas pelo país, visitei amigos em suas casas de campo, de praia, de montanha...
Apaixonei-me pela culinária refinadíssima, morro de saudades das nozes, pistaches, castanhas, avelãs, frutas secas. Não me esqueço dos pães, do iogurte, do suco de romã puro ou com vodka...
Conheci a Pérsia profunda: lagos salgados, desertos salgados, as antigas capitais, segui a "rota da seda", dormi em caravanserais... Sempre assessorada por amigos locais.
Não conheci um iraniano, de nenhuma classe social, que fosse favorável ao regime teocrático instalado no país. Só uma coisa aproxima o povo do governo: o direito à tecnologia nuclear.
A pressão do ocidente fortalece e radicaliza os aiatolás. O povo do Irã não aceita esta interferência mundial. Quem são os ocidentais para dizer a eles o que fazer? Eles não vem o ocidente como um modelo a ser seguido. Eles não acreditam nos governos que já apoiaram Sadam Hussein numa guerra contra eles. Eles não tem razão para acreditar nas grandes potências. Isto incomoda. Melhor demonizá-los. Eles são acusados de não cumprirem acordos. Quem os acusa também não cumpre.
O domínio da tecnologia nuclear é considerado pelo povo do Irã como um direito deles, que sempre tiveram grandes cientistas, que sempre valorizaram o conhecimento, a medicina de ponta, que querem vender energia nuclear..
O povo iraniano não começa uma guerra há mais de 200 anos. Eles não são belicosos. São diferentes de seus vizinhos. A instabilidade no Oriente Médio não é causada pelo Irã. Apesar da força que a imprensa, os governos, as corporações fazem para denegrir a imagem do Irã, eu confesso que o Irã que eu conheci não é o que é descrito pela mídia ocidental.
Não há favelas em Teerã, não há miseráveis pelas ruas. Minorias tem seus representantes no Congresso, judeus tem seus negócios, suas sinagogas, zoroastrianos tem acesa a chama em seus templos. A família é uma instituição valorizada. Refugiados palestinos e iraquianos são mantidos pelo governo e pelo povo iraniano, que lhes oferece abrigo, alimento e escolas...
Não acredito que ameaças e o uso da força possam melhorar a situação na região. Os iranianos não são os iraquianos. Ser mártir para defender a religião ou a pátria é motivo de júbilo até para as mães.
A negociação, o respeito, a falta de arrogância, as informações corretas são as armas para defender a estabilidade no mundo. Pena que muitos interesses financeiros estejam acima dos sonhos de bem-estar e paz."
A escritora Sonia Bonzi é uma das mais antigas colaboradoras da NovaE, escrevendo do Irã e de vários países do mundo.


Um abraço, blarg, e até!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Oriente Médio: a vez da Rússia?

 Olá!

Sempre que encontro leituras interessantes post no blogger. Esta matéria do  Robert Fisk, no The Independent, com Tradução: Caia Fittipaldi e Vila Vudu é uma destas surpresas, espero que gostem.

Eu sempre disse que em algum lugar do outro lado do Atlântico – ou talvez em algum lugar pelo Mediterrâneo – passa uma linha geopolítica pontilhada, talvez uma cortina, uma espécie de tela, através da qual o amável velho Ocidente (que já foi chamado de “a cristandade”) vê o Oriente Médio e interpreta errado tudo que vê. O Irã faz uma oferta pacífica e de pacificação para resolver seu programa nuclear, e a oferta é convertida em ameaça e motivo para sanções. Eleições à vista no Egito são vistas como mais um passo rumo à democracia, não como movimento para prolongar o reinado de um único partido e de um ditador já velho de 81 anos.
O início – elas sempre estão começando! – de conversações “indiretas” de paz entre palestinos e israelenses é visto como mais um sucesso parcial dos EUA como pacificadores, não como vergonhoso sinal de que não há qualquer esperança para os palestinos. Mais e mais massacres no Iraque e no Afeganistão são vistos como sinal do “desespero” dos Talibã, não como sinal de que já perdemos “nossa” guerra nos dois países.
Mas as linhas pontilhadas que há entre a Rússia e o Oriente Médio nem são tão profundas nem obscurecem tão completamente a verdade. Há inúmeras razões para que isso aconteça. A velha União Soviética manteve controle mais-que-colonial sobre um punhado de repúblicas muçulmanas – de fato, a Rússia czarista estava lutando na Tchetchnia no século 19. Leiam Haaji Murat[1] de Tolstoi. “Ninguém jamais discutiu o ódio contra os russos”, Tolstoi escreveu dos homens cujos descendentes combateriam o exército de Putin muito mais de um século depois. “O sentimento que todos os tchechnos conhecem, desde a infância, era maior que ódio. Não era ódio. Sequer se reconheciam os cães russos como seres humanos. Era tal nojo, tal repulsa, ante a crueldade irracional daquelas criaturas”. Bem poderia estar escrevendo sobre a fúria incendiária da população de Grozny, ou da fúria selvagem dos afegãos depois da invasão soviética de 1979.
Sim, os russos aprenderam muito no Afeganistão; e a ocupação pelo “nosso” Ocidente, lá, já dura hoje – detalhe que nossos risonhos generais e primeiros-ministros não lhes contarão – mais tempo que a ocupação soviética. Os grandes planos ocidentais para a “Batalha de Kandahar” – batalha que, desconfio, jamais haverá –, são menos ambiciosos que os planos soviéticos para Herat e Kandahar. Mas os russos não esqueceram o que lhes aconteceu.
Bin Laden, uma vez, à minha frente, jactou-se de ter destruído o exército soviético no Afeganistão – no que, sim, há o mérito de boa dose de verdade. Em Moscou, há cinco anos, ouvi veteranos soviéticos do Afeganistão – alguns hoje já devorados pelas drogas – descrever as bombas de fabricação caseira que matavam seus companheiros nas províncias de Helmand e Kandahar, patrulhas soviéticas capturadas cujos soldados eram desmembrados, a pele arrancada, com eles vivos. Os soviéticos, não se pode esquecer, entraram no Afeganistão para defender interesses seus. Brezhnev temia que, se perdesse o aliado comunista em Cabul, ficaria exposto a ataques de muçulmanos dentro da União Soviética –, mas diziam que combatiam para defender o povo contra um governo (claro!) corrupto, e para levar ao Afeganistão a igualdade socialista, sobretudo para distribuir educação e saúde para todos e para treinar o exército afegão. Nem preciso repetir…
Mas os soviéticos acabaram por entender bastante bem o mundo muçulmano — com certeza, a parte árabe daquele mundo. Passaram décadas treinando cada novo ditador para governar como o Kremlin, criando e implantando uma centena de mini-KGBs para esmagar qualquer oposição, inundando-as com armas e aviões, treinando soldados para lutar contra o próprio povo.
E quando Israel venceu em 1967, e novamente venceu em 1973 e outra vez em 1982 (momento memorável do sítio israelense contra Beirute, lembro, aconteceu quando o líder da Frente Democrática para a Libertação da Palestina pediu que Moscou lhes fornecesse armas, a serem entregues por paraquedas dentro da capital libanesa cercada), os russos assistiram à humilhação dos árabes. Diplomatas russos falavam muito melhor árabe que os colegas norte-americanos (o que continua a acontecer até hoje) e entenderam os falsos anúncios de apoio que se esperava que eles – os russos – dessem à “causa” árabe.
Assim, quando o presidente Dmitry Medvedev chegou a Damasco para encontro [retratado na imagem do post] com o presidente Bashar Assad [à direita, na fot0] no início de maio, os árabes o ouviram atentamente, porque ouvir atentamente é típico dos árabes; tanto quanto é típico de nós, ocidentais, não ouvir. Sem nem de longe deixar-se impressionar por “pacificações”, Medvedev declarou que a situação do Oriente Médio era “péssima, muito, muito ruim”, e insistiu que os norte-americanos tomassem “atitude séria”. “Em essência, o processo de paz no Oriente Médio deteriorou-se”, disse ele. “Qualquer aquecimento na situação do Oriente Médio levará a uma explosão e à catástrofe.” Os norte-americanos, por acaso, o ouviram? Não. Nem uma palavra. Não ouviram.
Em vez disso, La Clinton sassaricou diretamente rumo ao Capitólio, para dizer aos legisladores norte-americanos que o novo acordo nuclear Turquia-Brasil-Irã de troca de combustível nuclear não era bom-que-chegue; que as sanções da ONU estavam a caminho – com apoio dos russos. Bom. Isso, ainda teremos de ver, para crer.
Depois desse alerta, o presidente da Rússia – que é membro do infame “Quarteto” supostamente comandando pelo igualmente infame Tony Blair – fez o que Blair e um punhado de diplomatas britânicos já deveriam ter feito há muito tempo: foi visitar Khaled Meshaal, o líder do Hamás que vive em Damasco, e pediu-lhe que libertasse o soldado israelense que permanece prisioneiro em Gaza – jamais até hoje encontrado pelo infalível e valoroso exército de Israel, vale lembrar, apesar de os guerreiros de Israel viverem lá, bombardeando tudo e todos, aquela multidão de famintos e desesperados, já, hoje, há mais de um ano e meio.
Os israelenses não criticaram Medvedev – e teriam criticado se Blair ou Haia ou Obama se desse o trabalho de visitar Meshall. Mas… o ensandecido ministro do Exterior de Israel, Avigdor Lieberman… É russo, o homem, não é?
E então, aconteceu o quê? Medvedev pôs fogo aos gravetos, ao anunciar formalmente a venda de sistemas aéreos de defesa à Síria – mísseis Pantsir terra-ar de curto alcance, baterias antiaéreas e uma frota de aviões bombardeiros Mig-29. No mesmo dia, o que faz Obama? Pede que o Congresso aprove verba de 190 milhões de dólares para o sistema de foguetes de defesa de Israel. Tudo isso, apenas um mês depois de o presidente Shimon Peres, de Israel, ter dito – e apesar de os norte-americanos não terem acreditado, mesmo que nada pudessem dizer contra os argumentos israelenses – que a Síria teria mandado enormes (e ultrapassados) mísseis Scud para o Hizbollah no Líbano.
Esses velhos mísseis paquidérmicos de nada serviriam ao Hizbollah, apesar de o Hizbollah – que já declarou ter 20 mil foguetes prontos, engatilhados e mirados para atacar Israel – não se ter dado o trabalho de desmentir as tolices sobre os Scud.
O vasto desperdício de dinheiro que consome EUA e Rússia e também a Síria – embora não consuma os israelenses, cuja economia flutua acima do mundo, apoiada no sustento financeiro que recebe dos EUA – continua, simplesmente, invisível, no Ocidente, onde todos continuamos a jogar joguinhos de “sanções” da ONU e preocupações com a “segurança” de Israel (e nenhuma preocupação com a “segurança” dos palestinos). E para quem Obama desenrola seu tapete vermelho – muito literalmente? Para o corrupto e corruptor Hamid Karzai.
Por quê, ah, mas, por quê, pergunto e pergunto a mim mesmo, Obama – que gastou meses e meses debatendo o tal “surge” (e como odeio essa palavra!) no Afeganistão – não convoca todos os seus “especialistas” em política externa e, afinal, se dispõe a aprender um pouco sobre a infinita tragédia, cada dia maior, de toda essa região? Do mar ao mar brilhante, coast to coast, os EUA mantêm legiões de departamentos de “Estudos do Oriente Médio”, “Estudos Islâmicos”, “Estudos Hebraicos”, “Estudos Árabes” – e nada, do saber que lá haja, é jamais utilizado. Por que não?
Porque os “especialistas” em política externa – e seus horríveis clones na CNN, Fox News, ABC, NBC, CBS  etc. – não têm interesse em partilhar gratuitamente o que sabem. Onde se escreve “Harvard”, leia-se o Brookings Institute; em “Berkeley”, leia-se a Rand Corporation etc., etc.
E o que jaz por trás disso? Recorro ao meu velho camarada John Mearsheimer, coautor de The Israel Lobby and US Foreign Policy que se tornou best-seller também entre os norte-americanos comuns – apesar das crises de ira de Alan Dershowitz (aquele, que cometeu a infâmia de dizer que “O juiz Goldstone é agente do mal”) – e que acaba de publicar outro valente artigo sobre a influência daninha que o lobbylobby do partido Likud, mas esqueçam esse detalhe, por ora. pró-Israel exerce em Washington; de fato, é o
Mearsheimer diz que o presidente Barack Obama conseguiu “finalmente arrastar Israel e os palestinos de volta à mesa de negociações”, na esperança de que essas negociações levem à criação de um Estado palestino em Gaza e na Cisjordânia. “Infelizmente, nada disso acontecerá,” diz Mearsheimer. “Em vez de criar-se um Estado palestino, o mais provável é que os territórios ocupados sejam incorporados a uma ‘Grande Israel” que, então, converter-se-á em Estado de apartheid, em tudo semelhante à África do Sul governada por minoria branca”.
Nenhum presidente norte-americano pode obrigar Israel a mudar suas políticas para os palestinos. Mearsheimer não poupa palavras. “A principal causa disso é o lobby israelense, poderosa coalizão de judeus norte-americanos e cristãos evangélicos que tem profunda influência na política dos EUA para o Oriente Médio. Alan Dershowitz – sim, sim, o mesmo – “acertou ao dizer que “Minha geração de judeus (…) tornou-se parte do que talvez seja o mais efetivo movimento de lobby e arrecadação de dinheiro, de toda a história da democracia.”
Não é a primeira vez que um intelectual norte-americano fala tão claramente. Desde 1967, todos os presidentes dos EUA opuseram-se à colonização ilegal de terra dos árabes, pelos israelenses, na Cisjordânia. Todos fracassaram. Obama fracassará, como os demais. Depois de eleito, Obama pediu o fim daquelas colônias. Netanyahu mandou-o às favas. Obama – Mearsheimer procurou atentamente a palavra – “desabou”. Quando Obama pediu o fim das construções em Jerusalém Leste, Netanyahu disse que Israel jamais pararia de construir ali, porque seria “parte integral do Estado judeu.” Obama afundou ainda mais.
Netanyahu continua a repetir que não parará de construir naquela parte de Jerusalém com que os palestinos contam para ser sua capital. Obama já nem responde. E ninguém espere, nem por um segundo, que La Clinton responderá – ela tem planos para ser a próxima presidente, depois de Obama.
O vício da atitude dos europeus é que eles tampouco farão qualquer coisa contra Israel porque – essa a sublime e falsa mensagem de todos os ministros do Exterior da União Europeia – os EUA é que têm “ascendência” sobre Israel. Sim, é possível que os EUA tivessem alguma ascendência sobre Israel – dadas os maciços subsídios econômicos, dos quais vive o Estado judeu –, mas não têm. Porque, como diz Mearsheimer, o lobby comanda toda a política dos EUA para o Oriente Médio. Nada disso deve sugerir que haveria algum tipo de “conspiração” de judeus; isso significa apenas que o lobby Likud-Israel priva os EUA de todos os direitos de independência como negociador; e emascula todas as políticas norte-americanas, ao mesmo tempo em que faz aumentar o risco para os EUA, em todas as políticas para toda a região.
O ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert – o qual, como vários outros ex-ministros e presidentes vive de repetir truísmos quando já não tem poder para fazer valer qualquer verdade – diz que se a Solução dos Dois Estados fracassar (e fracassará, com toda a certeza), “Israel enfrentará conflito semelhante ao que a África do Sul enfrentou” e que, “quando isso acontecer, será o fim de Israel”. Mearsheimer conclui que “o lobby nos EUA está, de fato, trabalhando a favor da destruição de Israel como Estado judeu”.
E nós, o que fazemos? Continuamos a apoiar todos os ditadores criminosos e potentados na região, encorajando-os a confiar nos EUA, a fazer mais concessões a Israel, e a manter o povo subjugado. Vez ou outra, pedimos que sejam “mais democráticos”. Foi ideia de George W. Bush – para a qual contribuiu sua esposa, que acreditava que o rei Abdullah da Jordânia e sua rainha seriam bons exemplos de democratas – e, isso, numa democracia sem Constituição! Às vezes, surpreendo-me com a ironia – e a hipocrisia – de haver países europeus empenhados em exigir democracia dos árabes.
Queremos espalhar “parlamentinhos à inglesa” por todo o Oriente Médio, em tempos em que a maioria dos países da União Europeia vão-se convertendo em nações presidencialistas. O prestígio da Real “House of Commons” vem-se deteriorando há anos – nenhum jornal britânico tem coluna dedicada ao Parlamento, por exemplo – e a síndrome dos Blair-istas tem muito a ver com isso. Talvez aí esteja a razão pela qual esse ser em ruínas não trabalha muito a favor da democracia no Oriente Médio.
Sim, e é tudo verdade. Os governantes árabes estão tão seguros deles mesmos, que hoje gritam “bu!” à Mamãe Gansa dos ovos de ouro dos mercados “ocidentais”. Quando o governo Obama criticou a decisão do presidente egípicio  Hosni Mubarak, de manter a legislação de emergência que já dura 30 anos (Clinton disse que a prorrogação ignorava “vasta gama de vozes egípcias”) –, o ministro do Exterior egípcio respondeu, sem pestanejar, que a questão estava “superpolitizada” e que a crítica vinha só da mídia dos EUA e de grupos de direitos humanos. Acertou na mosca, quanto à segunda parte.
Então, estaria chegando ao fim o século norte-americano? Desgraçadamente, ainda não. Talvez se corrijam algumas das ilusões ocidentais sobre o Oriente. Talvez os recentes ataques no Iraque e os mais espetaculares no Afeganistão, inclusive o espantoso ataque à base aérea de Bagram – e eu que supunha que estivéssemos combatendo a Batalha de Kandahar, não a Batalha de Bagram! – nos obriguem a ver mais verdades. Que o povo muçulmano – não os políticos corruptos – não pode ser derrotado e não será derrotado, mesmo que a guerrilha contra o Ocidente seja tão atrasada quanto violenta. Mas estaremos aprendendo alguma coisa? Os EUA mandam nuvens de aviões-robôs não tripulados ao Paquistão, cobrem de mísseis o Waziristão, e um paquistanês naturalizado norte-americano tenta fazer explodir um carro na Times Square para vingar-se – e os norte-americanos, para vingar-se da vingança, usam os aviões-robôs e matam mais 15 homens no Paquistão e… Os leitores podem completar a frase.
Não bastasse tudo isso, insistimos em escrever nossa história preventiva extraordinária desse conflito massivo. Sempre penso em como fomos à guerra na Irlanda do Norte no início dos anos 1970s. Nós jornalistas chegamos lá com ralo conhecimento histórico, pouco mais que a imagem dos quadrinhos da Punch, do irlandês bêbado, armado com cassetete, ansioso por matar sem qualquer motivo todos os gentlemen ingleses que invadissem seu país – e uma vaga memória de que a Irlanda Católica se mantivera neutra na II Guerra Mundial (o que é verdade); que o líder irlandês Éamon de Valera fizera visita de pêsames à representação alemã depois da morte de Hitler (o que é verdade); que irlandeses reabasteciam os barcos U alemães (o que é falso).
Os muçulmanos estão em situação semelhante; acreditamos que querem islamizar o Ocidente (o que é falso); que querem se expandir para o Oeste – é falso: fizeram isso quando quiseram, na Andaluzia –; que querem se expandir pela espada. Será que há quem acredite que a Indonésia, a maior nação muçulmana do mundo, foi invadida por árabes?
E há o conto da II Guerra Mundial – que os árabes teriam sido pró-nazistas. Bem, é verdade que o Grande Mufti de Jerusalém encontrou-se com Hitler e fez várias infelizes proclamações contra os judeus, embora nunca – ao contrário do que reza a propaganda israelense – tenha visitado Auschwitz. Também é verdade que Anwar Sadat trabalhou como espião para Rommel no Egito – e muito teria festejado se a Wehrmacht tivesse avançado até a Palestina. Mas depois se tornou o melhor amigo árabe que Israel jamais teve, convidado a Jerusalém quando quis fazer a paz.
Mas os preconceitos ocidentais vão muito mais longe, no tempo – até os dias em que usávamos a palavra “turco” em vez de “muçulmano”. Na Itália, antes do século 16, “turco” era palavrão. Um diplomata sueco, Ingmar Karlsson, descobriu, ao pesquisar para uma conferência que fez em Istanbul em 2005, que os italianos têm a expressão “puzza comme un turco”, “fede como um turco”. Hoje, os ingleses ainda dizem “fala de turco” e meu próprio dicionário escolar Random House American College Dictionary de 1949 define “turk” como “pessoa tirânica, bárbara ou muito cruel”.
E assim vamos, sem esquecer a pequena ajuda do amado Papa em Regensburg. Apesar de os árabes terem sido imperadores de Roma e de terem visitado o Ocidente antes de nós, ocidentais. Quando Vasco da Gama “descobriu” a Índia e chegou a Calicut (Calcutá), no dia 20/5/1498 – devo essa história, provavelmente apócrifa, a Warwick Ball em seu notável Out of Arabia – foi recepcionado por um árabe da Tunísia com as palavras “Que o diabo o carregue! O que veio fazer aqui?” Mas crônica contemporânea de Hadramaut (em nossos dias, o Iêmen) descreve o modo como apareceram, um belo dia, as naves francesas, a caminho da Índia. “Tomaram logo sete barcos (árabes), mataram todos a bordo e fizeram alguns prisioneiros. Foi o primeiro feito deles, malditos sejam!” Os europeus estavam chegando ao Oceano Índico, e já pensávamos que os árabes estariam tentando entrar na Europa.
Vai ver, essa é a linha pontilhada original. Ou teriam sido as Cruzadas? Ou o Império Otomano – lembram que a Turquia foi “o doente da Europa”? – ou as mentiras que contamos aos árabes, sobre a Palestina? Ou a revolução iraniana? Ou o quanto nós, europeus, demos apoio incondicional a Israel? E todos os ditadores que introduzimos e apoiamos? Mas é tempo de nos livrarmos de todas as linhas divisórias, ver a realidade e ouvir – tenho mesmo de repetir? – Dmitry Medvedev e seus assemelhados.

Um abraço, blarg, e até!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O Réu?!?!

Olá!

Que me conhece sabe da minha admiração pelo José Dirceu e da minha indignação pelo seu caçamento como parlamentar. Pois bem, cunhei esta estrevista feita, com o "companheiro", pela Jornalista Priscila Gorzoni para a Revista Ciência & Vida - Sociologia. Segue a entrevistra na íntegra.

À espera de seu julgamento, previsto para 2011, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu fala sobre sua trajetória política e revela ansiedade pela decisão do Supremo Tribunal Federal

Nascido em Passa Quatro, uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu de Oliveira e Silva apaixonou-se cedo pela política. Formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), teve destacada atuação como liderança do movimento estudantil nos "anos de chumbo" da ditadura militar. No dia 12 de outubro de 1968, durante o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado em um sítio de Ibiúna-SP, Dirceu acabou preso e conduzido para o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

No início de setembro de 1969, em troca da libertação do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado por integrantes das organizações guerrilheiras de esquerda Ação Libertadora Nacional (ALN) e Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), Dirceu e mais 14 presos políticos foram libertados pelos militares e expulsos do país. "Cassaram a minha nacionalidade, me baniram do país", afirma Dirceu, que exilou-se em Cuba e retornou na condição de clandestino para o Brasil. Após a anistia, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, em 1980. Eleito deputado federal, participou da CPI que levou ao impeachment e à suspensão dos direitos políticos do então presidente Fernando Collor de Mello.

Quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente da República em 2002, José Dirceu logo assumiu uma posição de protagonismo em Brasília. Nomeado ministro-chefe da Casa Civil, era o homem forte do Governo Lula até as denúncias do deputado federal Roberto Jefferson provocarem uma grande crise política, que culminou com a sua saída da equipe ministerial e a cassação do seu mandato de deputado federal.

Nesta entrevista exclusiva para a revista Sociologia Ciência & Vida, José Dirceu conta como entrou para a política, relembra sua vida em Cuba, faz sua avaliação do caso PC Farias e do episódio de sua cassação em 2005.

Você nasceu na cidade de Passa Quatro, no interior de Minas Gerais. Lá, você já tinha contato com a política? Mostrava inclinação para essa vocação?Conte sobre o seu primeiro contato com a política e a militância na esquerda. Quais fatores ali podem ter influenciado sua trajetória política?

Meu pai era civilista, da ala do deputado Bilac Pinto (UDN-MG), e rompeu com o golpe na hora que a ditadura cortou figuras como o Lacerda e o Magalhães Pinto. Uma ala da UDN, partido extinto pelo AI-2 em 1965, se descolou e foi para a Frente Ampla, a união do JK, do Jango e do Lacerda, que foi extinta por decreto pela ditadura. Convivi com a política em casa, desde cedo. O sócio do meu pai na gráfica era do PTB, getulista. Aprendi a conviver com a diversidade desde criança.

"DESENCADEAMOS UMA REVOLUÇÃO CULTURAL QUE PODERIA SE COMPARAR À SEMANA DE ARTE MODERNA SE NÃO TIVESSE SIDO TOLHIDA PELO AI-5. EM 1968, VIMOS SURGIR UM BRASIL URBANO E UMA GERAÇÃO JOVEM QUE TRABALHA E É INDEPENDENTE DOS PAIS"

Você se formou em Direito na PUC. O que o levou a fazer este curso? Detalhe sua liderança política naquela época.

Minha opção pelo Direito foi por via política. Queria estudar direito constitucional e internacional, além de penal. Na faculdade, me dei conta de que os professores ensinavam como se vivêssemos numa democracia e não falavam da ditadura, dos Atos Institucionais 1 e 2, da repressão, das cassações, da censura, das prisões, da proibição de greves e manifestações, do fim das eleições diretas. Comecei a protestar e a militar, a reativar o Centro Acadêmico, a participar de cineclubes, feiras de livro, reuniões e debates. Tudo proibido pela ditadura.

Depois participei das lutas contra o aumento das anuidades, pela reabertura da UNE e das UEEs, as uniões estaduais de estudantes, e dos centros acadêmicos, até ser eleito presidente do CA 22 de Agosto, da minha faculdade, a PUC de São Paulo, e depois da UEE de São Paulo. Comecei a liderar minha classe e depois de participar de todas as lutas, aos poucos fui aprendendo com as lideranças de antes do golpe. Me filiei ao PCB [Partido Comunista Brasileiro] e depois à dissidência estudantil do PCB. Me lembro que quando entrei na faculdade de Direito da PUC, em 1965, encontrei um cemitério. Fui um daqueles jovens que se opunham ao golpe militar dado um ano antes e um militante do movimento estudantil e da rebelião de uma geração contra toda uma estrutura moral e de comportamento.

Desencadeamos uma revolução cultural que poderia se comparar à Semana de Arte Moderna se não tivesse sido tolhida pelo AI-5. Em 1968, vimos surgir um Brasil urbano e uma geração jovem que trabalha e é independente dos pais. Começou a surgir um Brasil rebelde e libertário que misturava, por exemplo, as elites com as classes populares nas universidades. Quando ingressei nessa luta, o movimento estudantil vivia um cenário desolador: o golpe militar desfechado um ano antes fechara a maioria dos centros acadêmicos e instituições de movimentos sindical e popular, estabelecera censura (ainda que não institucionalizada) e até índex de livros proibidos.

O Brasil vivia o auge da repressão. Fale sobre a famosa Batalha da Maria Antonia.

A repressão permeava tudo: o ensino, a relação com os professores, a discriminação às mulheres, os movimentos e agremiações sociais e populares, enfim, toda a vida nacional. Da revolta contra essa opressão e contra os padrões conservadores, nasceu, efetivamente, minha atuação política. Fui um dos participantes da batalha da rua Maria Antonia, em 3 de outubro de 1968, o histórico, gravíssimo e sangrento confronto entre estudantes da Faculdade de Filosofia da USP [Universidade de São Paulo] e uma minoria de estudantes da Universidade Mackenzie, este lado com o apoio de agentes infiltrados do DOPS e de membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). O conflito, forjado para justificar a ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, principal polo do movimento estudantil paulista, culminou na morte do secundarista José Carlos Guimarães, assassinado à bala pela repressão aos 20 anos. Após esse triste episódio, fizemos clandestinamente o 30º Congresso da UNE, em Ibiúna. "Caímos". Os registros da mídia variam, mas o nosso cálculo é que mais de 800 estudantes foram presos, entre os quais eu.

Você foi um dos quinze presos liberados por exigência do sequestro do embaixador norte-americano. Por favor, relate como foram essas negociações e o que chegou até você nessa época. Qual era a sua relação com o grupo que sequestrou o embaixador?

Quando fomos presos durante o Congresso da UNE, primeiro fomos levados para o Forte de Itaipu, na Praia Grande, que na época era comandado pelo então tenente-coronel Erasmo Dias. Em seguida, fomos para o 2º BC em São Vicente, e depois passamos por uma delegacia na rua Onze de Junho, e pelo quartel do Exército em Quitaúna, bairro de Osasco. Lá eu fiquei sabendo por um preso que chamávamos de Cabeleira que seria um dos 15 presos políticos trocados pela libertação do embaixador americano Charles Burke Elbrick, e banido do país. Cassaram a minha nacionalidade, me baniram do país e me colocaram em um avião para o México.

Fui recebido com outros companheiros pelo governo mexicano. Ficamos em um hotel que existe até hoje lá, no centro da Cidade do México.Depois de um mês, fomos para Havana, onde éramos hóspedes do governo cubano. Não tínhamos informações sobre as negociações, e minha relação com a ALN era política. A não ser pela presença na sua direção e nos grupos de combate de dezenas de companheiros que haviam lutado comigo no movimento estudantil, eu não tinha contato e não era militante da organização de Marighella. Alguns deles reencontrei em Cuba, daí a razão da minha ida para a Casa dos 28, onde me integrei ao grupo que estava em Cuba pela ALN para treinamento militar.

"VIVI O EXÍLIO E A CLANDESTINIDADE E, NAS DUAS SITUAÇÕES, A REPRESSÃO, O ENDURECIMENTO DA DITADURA, AS MORTES E DESAPARECIMENTOS POLÍTICOS PROVOCADOS PELA DITADURA, A PRISÃO E TORTURA INFRINGIDAS AOS IDEALISTAS QUE RESISTIAM À DITADURA, E A SAGA DOS MILHARES DE BRASILEIROS QUE, COMO EU, FORAM OBRIGADOS A SE EXILAR"


Durante o exílio em Cuba, como era a sua vida no país? Como era o seu relacionamento com os parentes e colegas no Brasil, e quais foram os momentos mais marcantes dessa fase? Depois, você voltou ao Brasil duas vezes clandestinamente. Como foram esses retornos?


Vivi o exílio e a clandestinidade e, nas duas situações, a repressão, o endurecimento da ditadura, as mortes e desaparecimentos políticos provocados pela ditadura, a prisão e tortura infringidas aos idealistas que resistiam à ditadura, e a saga dos milhares de brasileiros que, como eu, foram obrigados a se exilar. Em Cuba reencontrei os companheiros da Ação Libertadora Nacional e comecei a fazer treinamento militar. Lá, estudei e trabalhei quando não estava fazendo treinamento ou me preparando para voltar ao Brasil.

Nunca mantive contato com minha família durante o exílio e a clandestinidade, a não ser para avisar que estava vivo. De volta ao Brasil, lutei na clandestinidade entre 1971 e 1972. Sem condições de permanecer no país, voltei para Cuba por decisão de minha organização, o MOLIPO [Movimento de Libertação Popular]. E vivi também clandestinamente em Cruzeiro do Oeste, no Paraná, de 1975 a 1980, onde me casei com Clara Becker e tive um filho, José Carlos, hoje prefeito da cidade. Com a anistia em 1979, voltei à atuação política normal, ajudei a fundar e a organizar o PT. Durante os anos que vivi no Paraná, aproveitei para conhecer o Brasil e estudar, ler, viajar. Só voltei a fazer contatos políticos no meio do ano de 1979, quando já estava claro que a anistia viria graças à luta democrática dirigida pelo MDB e à ascensão das greves operárias lideradas por Lula.
Você foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Explique-nos sobre o início da formação desse partido e quais eram as maiores dificuldades. Fale sobre a sua atuação no partido no início e nos últimos tempos antes de sua cassação, em 2005.

Com a anistia e o início da redemocratização, assim como eu, muitos militantes de esquerda, de vários grupos, da luta política e da luta sindical, sentíamos a necessidade de nos organizarmos em um partido que representasse os interesses dos setores progressistas e, principalmente, os interesses do povo brasileiro, do trabalhador brasileiro. Havia um movimento sindical belíssimo no ABCD paulista, que foi berço para esse partido.

Esse ideário de transformação, de construção do socialismo e de transformação ética da sociedade também cativou setores progressistas da classe média, da Igreja e mesmo do empresariado. Fui um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, fui seu dirigente por anos. De 1981 a 1983, fui secretário de Formação Política do PT paulista; de 1983 a 1987, secretário-geral do seu Diretório Regional; e de 1987 a 1993 fui secretário-geral do Diretório Nacional. Em 1986 fui eleito deputado estadual em São Paulo. Em 1990, fui eleito deputado federal e em 1994, disputei o governo de São Paulo, recebendo dois milhões de votos.

Voltei a ser eleito deputado federal em 1998 e 2002, quando fui o segundo mais votado do país. Em 1995, assumi a presidência do PT, sendo reeleito por três vezes. Na última, em 2001, fui escolhido diretamente pelos filiados em um processo inédito no Brasil de eleições diretas para todas as direções de um partido político, e ocupei a função até 2002, quando me licenciei para participar do governo do presidente Lula. Fui integrante da coordenação das campanhas de Lula à presidência em 1989, 1994 e 1998, tendo sido o coordenador-geral em 2002. Com a vitória de Lula, assumi a função de coordenador político da equipe de transição. Quando o presidente assumiu, fui nomeado ministro da Casa Civil, cargo que ocupei de janeiro de 2003 a junho de 2005.

Você participou ativamente da CPI que levou a saída do então presidente Fernando Collor de Mello. Como avaliaria hoje o caso PC Farias?

Na Câmara dos Deputados, assinei, com Eduardo Suplicy, requerimento propondo a "CPI do PC" (Paulo César Farias), que levou ao impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Mas o que pedi era investigação para os fatos que se denunciavam à época. Collor renunciou para não ser cassado, para não ser condenado num julgamento político, e depois foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal. Como avalio hoje? Hoje, o ex-presidente Collor, depois de cumprir dez anos de suspensão de seus direitos políticos, é senador pelo seu Estado, Alagoas. Assim, acredito que respondeu por seus atos com a cassação e a suspensão dos direitos políticos por dez anos.
Durante o processo que culminou com a sua cassação, em 2005, como você enfrentou as acusações? Hoje, de que forma você analisa essas acusações e o que faria de diferente se pudesse voltar no tempo?

Logo após as entrevistas de Roberto Jefferson para a "Folha" e, principalmente depois que o "Estadão" sugeriu a ele a ideia - e ele comprou - de me apontar como "chefe da quadrilha", eu sabia que seria cassado, sabia que a Câmara teria de dar uma resposta e que a oposição não perderia a oportunidade de fazer tudo para me tirar o mandato. Nesse período, entre as denúncias e a votação da perda do mandato, eu fiz minha defesa com todas as forças, mas também me preparei para a vida longe do Executivo e do Legislativo. Mais ainda, me preparei para enfrentar os próximos anos à espera do julgamento no Supremo Tribunal Federal, que deve acontecer em 2011.

Se considerarmos que o processo de cassação foi em 2005, posso dizer que falta pouco. No mais, já fui absolvido em ação de improbidade administrativa que corre na Justiça Federal em Brasília; todas as seis investigações abertas no chamado caso Waldomiro Diniz - duas CPIs, dois inquéritos policiais e dois procedimentos do MP - nada apontaram contra mim e nem arrolado como testemunha eu fui; e sobrevivi a uma devassa de 17 meses feita pela Receita Federal, que não encontrou nada de irregular nas minhas contas, principalmente no que se refere à variação patrimonial incompatível. Praticamente recebi um atestado de idoneidade. Só resta aguardar o julgamento no Supremo.

Quais são seus planos futuros?

Neste momento, aguardo ansiosamente meu julgamento no Supremo Tribunal Federal.


Um abraço, Blah e até!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Carta aos candidatos, sobre a utopia do possível

Olá!

Me deparei, durante minhas andanças virtuais com este texto da Marilza de Melo Foucher, que é doutora em Economia, especializada em desenvolvimento territorial integrado e sustentável. Li e gostei muito, quem sabe se todos nós enviássemos este texto para os candidatos, tanto à Presidência, mas os de todos os níveis, talvez, talvez algo do que ela propõe seja implantado no nosso Brasil. leiam e se gostarem façam como eu: assinem embaixo.


Um eleitor ou uma eleitora assume o exercício da cidadania política não somente com o voto no dia da eleição. Ele, ela pode influir no debate político atual. Tendo em vista que hoje o Brasil conta com uma malha importante de comunicação virtual, cada um e cada uma pode sugerir aos candidatos sua visão de Brasil.

As treze sugestões abaixo, escrevi para o primeiro e segundo mandato de Lula. Reescrevo hoje, esperando que cheguem até as mãos de Dilma, de Marina, de Plínio, e até as mãos de Serra! Todavia, Serra representa a continuidade do governo de FHC que deixou o Brasil em situação crítica. Muitas dessas sugestões em parte foram cumpridas, outras não. O desafio continua!

Eu continuo na teimosia da utopia do possível.

1. Qualquer candidato eleito à Presidência da República deverá ficar atento aos direitos humanos, à solidariedade social, ao desenvolvimento territorial integrado e sustentável, à justa partilha dos frutos do crescimento econômico, ao direito de um meio ambiente protegido, ao respeito pela diversidade cultural, lingüística, religiosa e partidária, combatendo todas as formas de preconceitos sociais e raciais.

2. Os programas sociais serão ainda mais dinâmicos no seu acompanhamento, no sentido de corrigir suas falhas. Todas as atividades e projetos serão mais orientados ao processo de inclusão social: só assim se evita o assistencialismo. Trabalhar com os excluídos exige ação bem articulada com outros ministérios implicados, com os governos locais e suas respectivas secretarias. Os programas sociais e de geração de trabalho e renda terão uma metodologia para articular todas as atividades e projetos, a fim de promover um desenvolvimento integrado, solidário e sustentável. Isso exige uma capacitação das pessoas implicadas nos diversos escalões do Estado.

3. A reforma rural não se pode fazer sem reforma urbana; a relação entre a cidade e o campo deve ser tratada de forma associada. A “favelização” das pequenas e médias cidades brasileiras foi o resultado da falta de uma política global. Isto revela a fragmentação da organização territorial. A fixação do homem à terra depende de uma nova concepção da relação espaço urbano/rural e da criação de alternativas que levem a inclusão social rural/urbana. Nesse sentido, os municípios serão mais estimulados a executar um verdadeiro programa de desenvolvimento territorial integrado, donde a questão da terra é revisada e planejada, desde as reservas indígenas, quilombadas, reservas extrativistas, florestais, desse modo, se evita conflitos desnecessários.

4. Deve-se superar o jargão da moda: o conceito de “desenvolvimento sustentável”, por vezes, vazio e sem fundamentação. O verdadeiro desenvolvimento leva em conta a dimensão cultural dos povos e trata de forma pluri-disciplinar os problemas que afetam a população onde o econômico, o social, o político, o meio ambiente formam um todo dentro de uma visão sistêmica da realidade. O centro de interesse de uma ação de desenvolvimento gira em função da dimensão humana. Daí todos os atores sociais de forma organizada devem participar da elaboração, na execução e no acompanhamento de qualquer ação que lhes concerne. O controle social integra-se ao exercício da cidadania ativa.

5. Continuar os esforços na área de educação, para que se possa melhorar a qualidade do ensino (do primário ao ensino superior); aumentar os recursos para capacitação dos professores em todos os níveis de ensino. Um salário digno para os professores do ensino fundamental até o segundo grau. Sabe-se que é nessa faixa etária que podemos dar uma formação à cidadania. Faz-se necessário e urgente de estabelecer no currículo escolar a educação cívica e transmitir aos nossos jovens os valores republicanos e um bom entendimento sobre o funcionamento do Estado. O que representa o Estado, essa abstração teórica criada pela inteligência humana. O que é um Bem Público. Como cidadão e cidadã, saber exercer seus direitos e cumprir com as obrigações face ao Estado democrático. Não vamos confundir educação cívica com nacionalismo. Trata-se de educar os jovens para o exercício futuro do poder: eles devem adquirir o aprendizado de saber lidar com a coisa pública, para entender o que é o poder, qual a função do poder político, quais são as qualidades necessárias para seu exercício. A exigência da educação cívica pode ser útil para sanear o vírus da corrupção presente na sociedade brasileira.

6. Propor ao corpo docente criar, também no currículo escolar, a educação para paz, a fim de desarmar a cultura da violência onipresente na sociedade brasileira. Enquanto os governos de todas as esferas não tratarem como prioridade a qualidade da educação, do jardim da infância à universidade, o Brasil continuará fabricando a exclusão e incivilidade.

7. O governo deve ter consciência que a miséria só será vencida no momento em que a educação for priorizada como fundamental. Ela deve ser tratada como uma temática transversal, presente em todos os programas sociais do governo. Um operário com um salário correto e com boa capacitação produzirá peças de qualidade, e saberá também exercer seus direitos e cumprir obrigações. Um funcionário público que usufrui de formação ao longo de sua carreira vai cumprir corretamente sua função. Terá uma concepção distinta do serviço público e da preservação do bem público. Na certa, terá mais resistência ao vírus da corrupção que um funcionário sem formação e mal remunerado.

8. O aprendizado da maquina da administração do Estado é fundamental e exige certas qualidades para seu bom funcionamento. Por isso, a competência, a idoneidade pública profissional são critérios necessários para nomear ministros (as) e outras pessoas aos cargos de direção, em qualquer instituição pública.

9. O Governo Lula adquiriu, em dois mandatos, a experiência de gestão de um Estado falido. Deve-se reconhecer que apesar de algumas falhas, conseguiu uma boa administração da crise econômica e agiu sem precipitação. Mudou o funcionamento da diplomacia brasileira e ela conseguiu forjar uma estratégia internacional de participação e não de submissão às regras multilaterais da governança mundial. Hoje o Brasil reúne condições para garantir uma política interna mais condizente com os anseios de seu povo. O governo Lula teve muita tática e esforços para sanear grande parte da divida publica e privada, criou credibilidade internacional, aumentou as reservas monetárias, possibilitando uma governabilidade capaz de promover a inclusão social. O próximo presidente deverá ter perspicácia e senso publico para dar continuidade a esse processo.

10. Continuidade da política de relações internacionais. Num mundo globalizado, é impossível governar um país sem estratégia de ação internacional. Deve-se saber construir alianças a fim de convencer as instituições da “governança” mundial que o Brasil é uma potência não-imperialista. O problema da miséria e das desigualdades sociais requer uma cooperação baseada na reciprocidade pautada no respeito das soberanias de cada nação, que tem a liberdade de escolher o modo de desenvolvimento mais compatível com sua realidade, concebido dentro de uma visão holística e não economicista do desenvolvimento.

11. Ao eleger seus deputados, senadores e seu presidente, o povo brasileiro espera que seus representantes sejam dignos dos mandatos. A casa do povo deve defender os interesses coletivos, não os privados. Espera-se dessa vez que os deputados e senadores votem a lei da reforma política para sanear Câmara e Senado, livrando-os do fisiologismo, que propaga o vírus da corrupção em todas as esferas do poder. A corrupção é uma questão de moralidade publica.

12. O próximo governo deve propor uma profunda reforma administrativa, para melhorar a gestão publica em todos os ministérios, secretarias e autarquias. Que nenhum deputado, nenhum senador tenha o direito ao cabide de empregos na administração publica, como em geral é costume nacional. Agindo desta forma, o governo federal pode eliminar da maquina administrativa os incompetentes, apadrinhados dos cargos públicos. O candidato a assumir cargos públicos deve ter experiência e currículo para exercer sua função.

13. A diplomacia brasileira vai continuar os esforços em criar ma sinergia continental, capaz de promover um equilíbrio geopolítico sem hegemonias, acabando desta forma com a subordinação do continente aos interesses imperialistas. Existe hoje, entre os novos governantes da esquerda democrática (moderada e radical), uma convergência sobre a necessidade de uma integração política, econômica e social dos espaços regionais do Cone Sul e dos países andinos. Há disposição para fortalecer a comunidade sul-americana das nações. Essa comunidade engloba 12 países, cobre 17 milhões de Km2, agrupa 361 milhões de habitantes e representa um PIB de mais de 970 bilhões de dólares. Sabe-se que dificilmente um país sul-americano isolado, poderá confrontar as regras do funcionamento do sistema multilateral ainda sob controle das grandes potências do norte: daí a necessidade de continuar o fortalecimento da solidariedade sul-americana.


Gostaram? reopassem então para seus (suas) candidatos (as).
Um abraço, Blah e até!

terça-feira, 27 de julho de 2010

A Pratica Eleitoreira da Direita

Está cada vez mais difícil entender a imprensa e a oposição neste País. Se o Governo federal abre os cofres e remaneja verba para municípios em ano eleitoral é considerada uma medida eleitoreira, se faz o contrário é um governo que não “ajuda” os municípios. SE o Presidente da república não fala da candidata a sua sucessão é por que não a apoia, se fala é uso da máquina administrativa. Numa campanha eleitoral onde se comenta sobre a liberdade da democracia, a liberdade de imprensa, dever-se-ia comentar ou explicar para leigos em geral o que democracia e liberdade se exerce com respeito, respeito ao cidadão e cidadã que vota, ao cidadão e cidadã que é candidato (a). mas ao contrario tudo vale. Incluir acusações infundadas e/ou inverídicas sobre candidatos (as).
A mídia , que deveria informar está mais preocupada em eleger candidatos. Por que faz alarde ao déficit das contas externas Brasileiras como alguns grandes jornais (Globo, Folha, por exemplo) fizeram em suas primeiras páginas. Mas lá no pé da matéria explica porque o déficit: remessas de lucros das multinacionais para suas matrizes e “o brasileiro tem um novo robby – viajar para o exterior (Mas porque é mais barato ir para o exterior do que viajar dentro do Brasil? Alguém me explica por favor.) são apontados como PRINCIPAIS FATORES para o desempenho ruim das contas. Colocam como o pior resultado desde o longinquo 1947.

Em contra partida aos problemas existentes no atual governo federal, e eles existem de fato, os candidato da oposição mais forte já está no desespero. Pretende ele, José Serra, desqualificar a sua Oponente, Dilma Rousseff , da maneira mais sórdida, diz ele: Dilma é terrorista, Dilma está mal preparada para governar, critica as altas taxas de juros aplicadas pelo governo Lula. Mas alguém sabe em quanto foi aumentado os pedágios de São paulo, ou alguém se lembra da crise dos remédios durante o último ano do governo FHC quem era o ministro da saúde que saiu do cargo pelos fundos para se candidatar a presidência, ou ainda, alguém se lembra de um candidato a prefeitura de São Paulo que jurou perante as câmeras das principais emissoras brasileiras que ficaria quatro anos a frente de tal prefeitura, mas que depois de dois, eu disse dois anos saiu do cargo para concorrer ao governo do estado de São paulo, quem lembra? Vou lhes contar: foi o José Serra. Não gostar da candidata do PT é uma coisa, mas me fazer de besta é outra. Se por um lado serra acusa o PT de fomentar as invasões do MST, o que podemos dizer de um candidato que tem alicerces nos grandes empresários e nos grandes latifundiários do Brasil? Lembrando ainda os Oito anos de privatização vergonhosa, uma verdadeira entrega do ouro ao bandido, realizada pelo PSDB nos anos FHC, que teve o apoio de Serra e que agora, como tucano mestre, FHC dá apoio ao candidato Serra.

Vamos ter, mais uma vez, uma campanha polarizada entre o desespero da pseudo-vanguarda política, já ultrapassada e de modelo falido, que é o liberalismo burguês capitaneado por tucanos e democratas, e, de outro a revolução das massas capitaneadas por PT, o PC do B e demais coligados, num modelo que vinha de uma esquerda raivosa, pronta para morder tudo e todos, mas que apreendeu a administrar um gigante como o Brasil. Não nos iludamos, pois radicalizações não acontecerão, não é mais tempo para tal, nem há tempo para tanto. A base de governabilidade deste maravilhoso País passa pelas mãos nem tanto escrupulosas do PMDB – que nasceu nos movimentos revolucionários como o MR-8 – mas perdeu identidade e ganhou em ganância pelo poder e fará o que for para manter-se por lá. Pena, nobres intenções perdidas no tempo. È ver para crer não , ao menos para mim, não vale a pena pagar mais quatro anos de desmonte do governo federal com uma campanha abaixo do medíocre realizada por Serra e asseclas.